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Wednesday, December 14, 2005

O beiral

Todas as tardes de quinta matavamos a última aula para nor reunirmos no beiral da estrada. Éramos quatro amigos quase inseparáveis, desses que brigam a todo instante só para poder pedir desculpas no fim. Tínhamos em comum a fome, a desesperança e nossa incontestável paixão por carros. Ficavamos ali por horas, até o escuro da noite não deixar mais ver. No beiral, sempre perfilados na mesma ordem: Eu, Toninho, Beto e Vicente. Quatro focos na mesma espera pelos carros que cortavam aquele trecho da estrada ignorando qualquer noção de responsabilidade quanto a velocidade. Toninho suspirava, em seus olhos eu podia ver sua enorme capacidade de imaginar-se no volante. Por surpresa dessas que não se entende, foi o primeiro a nos deixar. Pai morto e apesar das tristes secas, a mãe partiu com ele de volta para as terras lá de cima. Deve ter feito da janela do ônibus um grande cinema. Depois de algum tempo era perceptível o nervosismo de Vicente com a nossa situação. Faltou uns dias na escola, julgamo-os doente. Em casa também não estava. Vicente apareceu semana seguinte. Parou ao nosso lado e mostrou a arma. "Vocês são meus amigos. Qualquer encrenca é só me falar!" Nunca mais vimos Vicente até nos depararmos com seu corpo coberto por jornais na esquinas da rua de baixo. Beto me disse que ia começar a trabalhar pra ajudar a mãe. E foi. Depois disso nossas tardes viraram minhas tardes. Sozinho sentava no mesmo beiral e ficava não mais admirando os carros, mas lembrando de meus amigos. Cada um com seus poréns, cada um longe de nós e, provelmente, mais longe de si mesmos. Sentado no beiral vi um carro parando , devagar... a porta abriu e o medo correu-me as veias. Nesta terra, só vale o medo. Vem o Beto de dentro do carro e acena num vem. Uma velha máquina, um beiral de rodas e nosso retorno de conversas vazias compensava a dor de não ver saída no fim do caminho.

4 Comments:

  • At 6:46 AM, Blogger Tatiana said…

    lindo texto. e eu senti a esperança apontando lá no final da estrada!

     
  • At 6:57 AM, Blogger Douglas Evangelista said…

    Ô desesperança Schoppenhaueriana hein...

    Acho que nem o Beto dá jeito, foi só uma visita rápida e já já volta a rotina.

     
  • At 5:32 PM, Blogger Lu said…

    Lindo demais o texto......Seus textos me causam arrepio.Parabéns!
    www.sempudor.blogs.sapo.pt

     
  • At 2:14 AM, Anonymous Cirineu said…

    Puta que pariu, Otávio! Cara, o ridículo aqui sentiu vontade de chorar.

    Congratulations, man!

     

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