Umas, novas, Idéias

Wednesday, December 07, 2005

VELUDO



Creio que a vida começou realmente para mim quando Alice pousou pela primeira vez seus pés em meu rosto. Desenhava o contorno de minha face delicadamente até elevar a voz e, num tom de ordem cheio de súplica ao fundo, pedir que os beijasse. Minha primeira reação foi estranhar, não o pedido em si, mas o modo como Alice o tinha feito. Menina doce, de uma brancura de alma, quase atrás de tudo que possa ter malícia, se mostrava agora insana e cheia de formulações pessoais indizíveis à maioria dos ouvidos hipócritas deste mundo. Beijei deliberadamente seus pés no encanto de estar realizando uma espécie de fantasia particular. E, para mim, esse fetiche da moça, não se tratava de beijar pés e sim da possibilidade de ser atendida sem questionamentos, essa coisa de mandar. Aos poucos seu corpo foi desfalecendo sobre a cama e ela se contorcia levemente, quebrando ar, brincando com o medo. Minhas concepções de orgasmo feminino tinham caído por terra no instante em que vi Alice apertar o lençol entre as mãos com muita força, contrair todos os músculos de uma só vez, ritmadamente, e soltar um grito mudo, preso nos lábios, que só pude entender quando beijei sua boca no fim. Isso faz uns cinco anos. Uns cinco anos que tento refazer a cena, mas percebo que nunca consegui rever a mesma expressão em seu rosto. Não que o tempo tenha tornado nossa vida num fado pesado e sem rumos, onde não há mais espaços para esse tipo de sensação. O que penso é que realizei naquele dia o grande desejo de Alice e que as repetições diversas não podem reproduzir o mesmo efeito. Dia desses decidi por um fim nesse impasse tão meu. Alice chegara do trabalho, um pouco molhada pela chuva, deixei que subisse para o quarto e a segui espreitando suas ações. Ela tirava peça por peça e já se preparava para colocar o roupão em direção ao banho. Entrei no quarto. Ordenei que parasse. Alice assustou e continuou em direção ao banheiro . Aconteceu algo! Disse espantada. Foi só o tempo de puxa-la brutalmente pelo braço e derruba-la no chão. Não entendendo muito bem minhas intenções, ela gritava, pedia socorro, tentava se livrar de mim, mas o peso e o tamanho de meu corpo proporcionavam uma armadilha impossível de se soltar. Seus braços já estavam vermelhos e sem tirar o roupão, pela intuição do corpo que só o tempo dá, penetrei Alice com a força que nunca tinha usado, com o fim de todos os carinhos, com a devassidão não tão comum aos casais... aos poucos seus gritos de medo e desespero traduziram-se em flashes vocabulares dessa redação de carnes e gozos. Alice , rendida debaixo de meu corpo, sem saber ao certo o que estava acontecendo, contraía todos os músculos de uma só vez, ritmadamente, e soltava um grito mudo, preso nos lábios, que só pude entender quando mordi sua boca no fim. Ainda ali, quase sem movimentos, me disse num sussurro que sua vida tinha começado realmente. Ela havia me dado o gosto de ser mandado, lhe devolvi a vida na revolta de quem quer mandar.

5 Comments:

  • At 7:37 PM, Blogger Tatiana said…

    chocante, meu caro...em todos os sentido possíveis..

     
  • At 2:22 AM, Blogger ariadne said…

    Excelente Otávio, vc tá sempre no páreo :-)

    abraço.

     
  • At 5:41 AM, Blogger Rafael Romero said…

    O que dizer? Melhor ficar calado.
    Foda... Foda... Foda...

     
  • At 1:52 PM, Blogger Pamina said…

    Que delícia

     
  • At 5:06 PM, Blogger Marlon Magno said…

    Pensei que ia serrar os pés da moça, jovem!
    Quando comecei a ler o texto pensei "bom início, redondinho redondinho" - seja lá o que for que iso signifique. Mas você se superou, nada de construções pobres aqui...
    Talvez eu vote em você. Dez real, playboy...

     

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