Umas, novas, Idéias

Monday, March 13, 2006

Três Tempos


A gente acaba por se encontrar nessa vida. Seja numa tristeza qualquer, num sorriso outro que não se conhece bem ou ainda numa própria desilusão. Mas a gente acaba se encontrando. Faço besteiras todos os dias e todos os dias penso comigo: Por que faço tantas besteiras? Tenho medos demais. Receios demais. Faço as coisas de menos. Nunca sei se é a hora certa de falar ou se é o momento de sair quieto, sem importar a impressão. E é isso, essa capacidade de desperceber as coisas que me vem agora, justamente agora que julgo me encontrar. São tantas horas diárias desperdiçadas em ônibus quase sempre vazios, em viagens sem intenção nenhuma, nas mesmas ruas, os mesmos rostos, o mesmo não estar contido em nada. Pensei em fugir pra bem perto de você. Pensei em repetir em voz alta todos os versos que julgo serem seus e expô-los numa sequência intolerante e severa. Mas só pensei. A janela do ônibus tremia junto à paisagem escorrida em verde e não mais pude entender qual era a dor. A gente acaba se encontrando. Num ponto de ônibus, numa espera de esperas já faladas, num olhar desconhecido e árduo, na mesma face ante o espelho, na mesma voz soletrando em tom de ópera o que os dedos tortos rebatem nas teclas e na tela e nas teclas... Resta ainda algum tempo. Antes de encontrar e de perder, o tempo passeia raso. E sobram vazios e nascem vazios e a volta é sempre a mesma, contornando a boca distante e o metro de cada rascunho. Mas a gente acaba por se encontrar nessa vida, um frente ao outro, num instante, e não se conhecer por detalhe, por desastre de segundos, por um suor diferente. Às vezes penso em escrever, noutras ocasiões escrevo. Decidir se a palavra é letra ou voz não é importante, o que me falta é conseguir dizer da forma que quero, tudo que quero. O que é idéia deixar de ser idéia e ser total, acontecer, mesmo que de fato não aconteça. Deixar de lado a frieza covarde da solidão e ser só na tentativa, no fazer - ainda que errado e pretencioso - mas no ato tentado e trêmulo como as mãos suando frio e os olhos sem direção. A gente acaba se encontrando nessa vida. Seja aqui, numa linha que possa te lembrar algo, seja noutro instante em que não saiba quem eu sou. Tudo é vírgula e dissimula a ordem decassílaba de minha questão.

1 Comments:

  • At 2:25 PM, Anonymous Pamina said…

    Te adoro!
    :)

     

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