Umas, novas, Idéias

Saturday, January 13, 2007

A poesia achada de INTERNAÇÕES


Nos idos de 2006, recebi pelas mãos do autor um pequeno livreto de poemas intitulado Internações. Na época, em meio a muita bebida e comida de qualidade, quase não me apercebi dos versos que povoam as dezoito páginas que formam o volume. Dia desses, remexendo aquela caixa de papelão que todo ser humano que se preza tem no canto do quarto, encontrei o poemário do senhor Lustosa da Costa. Resolvi ler com a calma necessária. É engraçado como conseguimos nos surpreender ainda nesse mundo. A reunião de poemas do senhor Lustosa reitera a fé itinerante dos que ainda almejam por ler interessantes e atuais versos. O que torna o livreto mais agradável é perceber como o autor se desdobra nas palavras e em suas tentativas de atingir as imagens que deseja compor. Aberto pelo poema Outra lírica, uma espécie de prefácio versificado, o poemário segue num ritmo que mescla homenagens e referências à Adélia Prado, Ferreira Gullar e Guimarães Rosa, com sutilezas literárias como a do belo poema Vamos comer Clarice :

Vamos comer Clarice
Temendo querendo te-la
Em suas partes mais íntimas, tangíveis.
Dar dor à Clarice que nos doa
Impiedosamente detalhista
Profunda, profícua.

Ou ainda no cartográfico Rodoviárias, no qual encontramos uma voz poética preocupada com a estética do verso, mas sem abandonar seus temas atuais e, porque não dizer, atemporais na tentativa de retratar o homem em seu ambiente de vida, no movimento:


Existe um povo estranho ao redor das rodoviárias. É um povo seco – que se
hidrata nos bares. Um povo só – que se acompanha nos prostíbulos, com
a alegria evasiva dos puteiros. Com a fé imoral dos fanáticos. Um povo
que tem, em suas veias agrestes, levantado cidades cheias de saudades
e sonhos. Os pés Di Cavalcanti, os retirantes Portinari e uma baleia
latindo aos pés. Um povo de choro quente e difícil.

É claro que Internações também tem seus momentos poeticamente complicados, desses que nos fazem lembrar de poemas de outrora como Baleias, mas os momentos felizes são superiores e chegam a pontos altos como o dos poemas citados e do excelente Poesia diária. No pequeno universo poético criado por Lustosa da Costa nessas dezoito páginas o que sobressai é a nítida intenção de se fazer algo novo, mas sem as pequenas especulações meramente estéticas. Algo em que encontramos um comprometimento sadio com a literatura e com os temas escolhidos pelo autor. Um comprometimento com a palavra escrita e seus ecos no em branco da folha.

Para os que se interessarem e quiserem ler mais de Lustosa da Costa:
http:://ideiasaderiva.blogspot.com

3 Comments:

  • At 6:01 AM, Anonymous Hildo Guimarães said…

    Não conheço a obra do resplandescente Lustosa da Costa, mas confesso que anotei o endereço de seu blog para uma futura visita, assim que acabar de escrever minha tese de pós-doutoramento, é claro. Mas gostei do que li aqui. Mas, como adquirimos esse livreto?

     
  • At 4:33 AM, Blogger Máximo Heleno Lustosa da Costa said…

    Otávio, muito obrigado pela leitura atenciosa e pelos comentários.

    Não tenho como não revalidar suas conclusões, afirmando que a literatura, pra mim, tem, de fato, este comprometimento extra-mercado, extra-experimentalismos - o que não significa que não possa flertar com os mesmos.

    Hildo, assim que eu encontrar o arquivo, envio para vc por e-mail, ok?

    Mais uma vez, obrigado.

    Tamujunto.

     
  • At 6:03 PM, Anonymous Clarissa Caleia said…

    Gosto mto dessa poesia dele.

     

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