Umas, novas, Idéias

Monday, October 24, 2005

Maybe, entre o sim e o não


Neste final de semana pude comprovar minha total inutilidade enquanto tentava forjar muitas maneiras de parecer realmente vivo. Desde o sábado tinha comigo este sentimento de não existência, mas nem mesmo eu poderia imaginar o que ainda estaria por vir no domingo.
Dia 23 de outubro de 2005: Referendo. Uma mini campanha política entre o sim e o não, onde, apesar de ter uma opinião formada sobre o assunto, pensei seriamente em não exercer minha farta amostra de cidadania. Como de costume, convocado pelo cartório eleitoral, fui cumprir minha sina de trabalhar gratuitamente num dia de domingo sem nenhuma perspectiva de algo novo. O problema é que enquanto temos a previsibilidade internalizada podemos nos prevenir de ingratas surpresas. Pois bem, trocado três vezes de função e trabalhando diretamente no cartório e não numa seçãozinha qualquer, tive que chegar as sete da manhã sem saber que só conseguiria minha alforria, as dezenove e trinta. Mesmo com todos os contras de se trabalhar para auxiliar a boa performance do pleito (atentem a leitura, pois eu disse pleito), sempre há os momentos em que você acaba se sentindo mais inútil que o comum. Meu domingo foi uma série desses momentos intercalados por doses cavalares de todinho, café, guaravita e Club social.
Tudo começou logo bem cedo quando percebi que minha presença ali era extremamente desnecessária. Esta não é uma observação de preguiça anunciada, mas de total responsabilidade cidadã. Éramos em dez, sem contar os dois juízes e o promotor público que completavam o escrete da zona (no bom sentido). Um intrépido funcionário, concursado, da seção esboçava toda a sua habilidade na constituição de belos e fartos sanduíches quentes que fazia questão de oferecer a todos que olhassem sua milenar arte de preparo. De fato era um grande preparador de rangos diversos. Comprovei sua qualidade degustando dois de seus saborosos mistos. O café rolava solto no maior espírito repartição pública, ainda mais acentuado pela incrível semelhança entre o chefe do cartório e o Lineu Silva do seriado global “A grande família”. Sobre a égide deste grande guru seguiram-se discussões diversas e de imprescindível relevância para o bom andamento dos trabalhos. Por volta das oito da manhã, o sanduicheiro foi requisitado para pechinchar preços, pelo telefone, de gelo. Sem entender muito bem, acompanhei o processo no intuito de aprender o que os bons homens que gerem a máquina pública deste nosso enorme e portentoso país conhecem sobre as artimanhas da negociação. Surpreendi-me, assim como muitos da seção, ao perceber que o vendedor de gelo, ao saber que se tratava de um funcionário do cartório eleitoral, passou a pedir diversas informações sobre como deveria proceder na eleição. Após a graça do momento descobri que o gelo era necessário para refrescar as dezenas de garrafas de refrigerante de dois litros e os muitos copinhos de guaravita. Gelo encomendado, provavelmente já a caminho, começou um amplo debate, pela boca de Lineu, sobre como deveria declarar o gasto com o gelo. A seqüência reflexiva de nosso clone de Nanini começava com a seguinte frase: “gelo é água!” De primeira a sentença parecia ser de cunho interrogativo, mas depois de tantas e convictas repetições da mesma frase pudemos perceber que ele tinha certeza do que falara. Sem entender muito bem todos começaram a rir até que Lineu explicou que sua expositiva definição teórica sobre a composição do gelo surgia de sua impossibilidade em declarar a compra efetuada na verba de alimentação já que água, café e açúcar são itens que não entram nesta lista. Assim, nosso temporário chefe, refletiu bons minutos sobre como deveria preencher o cheque administrativo de oito reais, eu disse oito reais, para o pagamento da encomenda.
Com a chegada do juiz tudo se transformou. O ambiente de total inoperância se tornou mais sisudo pela seriedade da figura e pelo medo que ele impunha já que tinha delegado em suas mãos o poder de voz de prisão, ou seja, falou merda se fudeu. Pelo menos para mim a figura do ilustre “doutor” ( doutor é quem tem doutorado) desmoronou quando o mesmo declarou com suas palavras que não votava fazia um bom tempo e justificava para ele mesmo, deferir ou não, através de memorando. É realmente uma grande festa da monarquia, quer dizer, da democracia. O marasmo da repartição foi interrompido após um apocalíptico telefonema no qual o interlocutor locado em sua respectiva seção eleitoral atentava para a periculosidade da falta de canetas em sua mesa. Meu Deus, pensei eu em voz baixa, temos que resolver o problema urgentemente para não atrapalhar o bom andamento do referendo. Para minha satisfação pessoal o difícil problema foi sanado rapidamente com o envio de três robustos homens até o colégio desprovido portando uma meio vazia caixa de esferográficas. Ufa, salvamos o país.
O tempo foi se arrastando bem devagar até a tarde. Outra vez veio através do telefone novo empecilho: certa zona eleitoral recebera os lanches de seus funcionários desfalcados de 22 todinhos. Uma grande confusão se gerou em torno da falha. Teria sido erro de contagem? Seria um caso de furto indevido? Seria um ato de gaiatice, como sugeriu um dos participantes? Eu, sem resposta para o cataclismo, observava a movimentação bebendo o quarto achocolatado do dia. Chegando ao final do período de votação nos encaminhamos até a portentosa Univer$idade $algado de Oliveira, vulgo Universo, para o processo de recepção das urnas. Este ilustre momento foi apenas interrompido por esta filosófica frase-ensinamento do coordenador do local: “Vamos organizar as urnas em ordem cronológica.” Não seria numérica? Pensei comigo. Mas o importante, doze horas após um não trabalho árduo, era ir para casa, por isso contemporizei. Minhas angústias pessoais se tornaram muito pequenas diante embates tão graves. Como quis ser apenas um pós graduando de uma Universidade Federal em greve, desempregado e participante do Conversando Literaturas... Como quis!
De volta para casa só pude pensar em escrever este pequeno relato antes que acabasse esquecendo algum detalhe deste tão entusiasmante dia. Com a certeza do dever cumprido e a satisfação da experiência adquirida encerro esta singela mensagem retornando a minha inutilidade, agora mais bélica do que nunca. A propósito, nesta terça-feira tem Conversando Literaturas no Bar dos Velhos, Cantareira, inaugurando o ciclo Borges. É preciso descontrair após tantos densos fragmentos de sabedoria. Termino o texto com frase muito própria, ao menos me parece, que dava título ao pequeno livro que encontrei sobre a mesa do Chefe de cartório e sósia Lineu Silva: “Você não é um acidente.” Devo ser... ah, mas devo ser sim...
obs: não seria Drummond lá na urna????

2 Comments:

  • At 9:18 PM, Blogger Clarissa said…

    Puxa, Otavio , agora entendo o temporal da madrugada: Verônica não foi convocada .Imagine se vc também não tivesse sido , o q aconteceria no RJ? ahahahha Mas pelo menos vc comeu bem , divertiu - se de graça ... recomendo que vc leia , "não faça tempestade num copo d`agua", antes da próxima eleição...

     
  • At 10:40 PM, Blogger Marlon Magno said…

    “Vamos organizar as urnas em ordem cronológica.” Essa tinha mesmo que figura na ata...
    Apocalíptico seu dia na seção eleitoral no subúrbio, rapaz, não imaginava. Mas valeu a pena, aposto que encheu a cara de Toddinho e voltou pra casa cheio de caneta BIC...
    Seu blog está cada vez mais parecido com o meu, pelo tom de deboche; cuidado! Dentre em breve Max, Fabiano, Ivan e eu vamos nos reuinir no Vestibular do Chopp pra te sacanera por causa do Umas, novas, idéias, huahauhauhaua...
    Abraço!

     

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