Umas, novas, Idéias

Sunday, May 21, 2006

Para além do livro, O Livro


Esses dias recebi um presente de aniversário vindo direto de São Paulo. Era o volume três da série Harry Potter que sempre tive um pouco de receio em ler. Junto ao livro enviou-me um pequeno bilhete que dizia mais ou menos assim: “Tente ler sem analisar. Sei que isso é difícil pra você, pois este é o seu trabalho, mas tente ler apenas se prendendo a história e não na maneira como ela é contada.” Foi o que fiz. Mas o que me parece mais importante nessa incursão, antes mesmo de falar se gostei ou não da história e do pequeno universo criado por J.K. Rowling, é que reafirmei minha idéia de que cada livro é um livro diferente e não falo apenas de títulos diferentes. Quero dizer... devem existir milhares de exemplares de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban no mundo, mas certamente nenhum é igual ao que recebi pelos correios na semana passada. O objeto livro, seja qual for, tem a importância que se quer ou se pode dar a ele. Este exemplar que tenho em mãos veio acompanhado de outros ingredientes que estavam por fora da leitura em si. O fato de se dar um livro que é seu, que tem seu nome na contracapa, desfalcar sua coleção que já não é mais completa porque você resolve presentear alguém de quem gosta, tudo isso transforma uma mera ação num ato de dedicação. Assim, comecei a leitura sempre sabendo que tinha em mãos não apenas uma história de Harry, mas uma outra história que era somente minha e que estava presente em cada detalhe do livro e falo de detalhes como uma pequena orelha na página, o bilhete que usei como marcador e o tocar sabendo que já fora lido por quem me enviou. Lembrei-me de Umberto Eco e estabeleci de cara um pacto com a srta. Rowling de que aceitaria todas as imaginações que encontrasse em suas páginas dedicadas a pequenos bruxos e uma escola de magia. A leitura fluiu feito o tempo que recriamos por de trás das horas. O livro encanta pela simplicidade e criatividade, a variedade de detalhes e o não se prender em descrições longas. Rowling conseguiu fazer uma história para crianças, com uma linguagem sem muitos emaranhados para que elas possam compreender e se envolver no texto e, ao mesmo tempo, recheia o livro de pequenas questões subentendidas como o cuidado pra criar um outro universo que mesmo no ambito da magia é paralelo ao que conhecemos como real, novas realidades; a anormalidade do normal e o descentramento da razão e da lógica vigentes. Quando terminei de ler Potter, sabia que não estava diante de nenhuma grande experimentação estética ou mesmo de nenhum aprofundado exercício de linguagem até porque essa nunca foi a intenção de J.K. Rowling. Percebi que tinha em mãos não apenas o livro três da série do pequeno bruxo, mas um pedaço bem grande de alguém releio todos os dias na lembrança. O prisioneiro de Azkaban me alegrou mesmo enquanto crítico, pois não há, em nenhum momento, pretensão por parte da autora. Ela se propõe a contar um história que é no mínimo interessante e o faz de forma sincera e consideravelmente boa. Lendo os embaraços de Harry, Hermione e Rony através desse olhar de fora, de quem está recebendo além da história em si outras histórias ao redor terminei minha leitura satisfeito e intrigado pelos próximos aconteceimentos. No mais, pude perceber e reafirmar que o objeto livro nunca é o mesmo ainda que tenha o mesmo título e as mesmas palavras impressas nas páginas, na mesma ordem. Em toda ação existe um desequilíbrio que controlamos para não cair. Na leitura não é diferente, pendemos sempre para um lado e para o outro até encontrarmos o ponto certo para centrarmos nossa atenção. O livro é o ponto quando se percebe de fato o que está se lendo: o processo ou a própria existência. De algum lugar adiante deste, alguém poderá rir, mas o que importa a página seguinte se ainda existem lacunas e espaços entre estas palavras? Eu não me importo. Quando leio escapo de mim.

2 Comments:

  • At 9:40 AM, Anonymous Pamina said…

    Livro pra mim sempre foi um objeto mágico, cada livro é unico...alguns tem uma assinatura, uma época, outros passagens grifadas, outros anotações nos cantos das páginas, deliciosas de ler. Alguns são mesmo adorados, encapadas, colocados na estante. Cada um tem sua forma de lidar. Sempre disse que um livro é feliz quanto mais for lido rs* Então não concordo em adora-los e deixa-los na estante. Obvio que isso me rendeu um desfalque de uns vinte livros...rs

    Outro dia, falando com o irmãozinha da Aninha, eu e a Aline fizemos uma analogia infantil, mas que depois pensando, vimos que era perfeita.
    Naquele momento em que esta com o livro em mãos, é como fazer parte de uma sociedade secreta. Um saber que só esta ali, naquelas páginas, só voce pode ver, não importa em que ambiente físico esteja, os demais não compartilham daquele momento com você. E é assim pra nós duas, saimos de nós...viajamos...mesmo ao ler uma mesma história, não ha cumplicidade, pois cada uma tem sua propria visão. Aline é minha irmã nessas horas...mas ainda assim, não estamos juntas, viajamos em separado, nos encontramos em algum ponto. Esse ponto que quis compartilhar com você...
    Eu disse que estava mal intencionada...muito mal intencionada, alias. Espero que cuide com carinho desse tesouro que hoje é nosso, e que forme seu proprio bauzinho.
    Adoro-te! Obrigada por estar sempre ao meu lado, e aceitar quando te pego pela mão, a viajar comigo...

     
  • At 10:10 AM, Blogger Marlon Magno said…

    Tem toda razão,Otavio. Foi com especial atenção que me detive na releitura de Histórias de cronópios e famas, não só pelo fascínio natural que Cortázarjá enculcou em todos nós, conversadores literários,mas também porque a brochura me foi presenteada pelo jovem Ivan.Lembrei da vez em que, bastante empolgado com a iminência do ciclo que capitanearia,leu para mim uma das estórias do livro, justamente aquele em que nos prevenia,sobrinhos incautos, a ficar de olho em nossas tias.

    A mesma relação tenho com livros usados.Os novos que estão em minha estante são todos presentes; como não tenho grana sobrando, sirvo-me dos sebos; em última análise,é lá que é possível reconhecer-se como leitor - e leitor de outros.

    Quanto ao Potter: enfim. Mas não posso reclamar, com Bridgitte Jones e O código da Vincilá em casa...

     

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