Umas, novas, Idéias

Thursday, April 06, 2006

O Mistério das Bolsas: A anatomia imprudência ou a Crônica definitiva do Não.

?







“E eu que já não sou assim
muito de ganhar
junto as mãos ao meu redor
e faço o melhor
que sou capaz
só pra viver em paz.”

Los Hermanos


Sartre já disse que o inferno são os outros. Talvez ele tenha razão. Talvez ele soubesse que a alteridade é condição vital para a convivência em grupo. Talvez ele soubesse que estar tão próximo dos outros faz com que esse inferno, aparentemente distante, venha para dentro de nós. Sartre escreveu alguns livros por aí, devia saber do que falava. O dedo corria manco pela folha de papel afixada num mural cheio de outras folhas e cheio de outras e mais importantes folhas. O encontro do dedo com o nome foi o esbarrão e o pisar em falso ao descobrir um precipício em frente. Você sabe quem inventou a bolsa? Vou me explicar. Não falo de bolsa enquanto acessório feminino ou mesmo como objeto útil para facilitar e viabilizar o transporte de outros objetos. Não se tratam de bolsas caras, de marcas e grifes famosas - Victor Hugo, romancista francês autor de Os Miseráveis, que eu saiba, nunca fabricou ou projeto sequer uma bolsa e no entanto seu nome decora sovacos de madames a tira colo. O que aqui se expõe é a questão das bolsas de auxílio a pesquisa. Bolsa como contribuição financeira mensal em prol do desenvolvimento das ciências e da tecnologia, das artes e da cultura deste país. Bolsa que serve para auxiliar os estudos de quem não trabalha, isto é, de quem não tem nenhum vinculo empregatício. Fico então pensando de que serve conferir bolsas de estudo como estas a pessoas que tem uma boa ou até excelente condição social, vários empregos e um ‘colinho credcard papai feliz’ pra se consolar. Afinal, pra que servem realmente essas bolsas? É interessante o fato de que para se conseguir a isenção do vestibular, ou mesmo um bolsa treinamento é preciso, praticamente, provar que se é miserável. São incontáveis documentos, entrevistas, visitas e inspeções para se passar por impossibilitado de pagar a taxa ou merecedor de um auxílio de cerca de R$ 200,00. O que faz as mesmas pessoas que impõe critérios tão rígidos de pobreza em etapas anteriores ignorarem o fato de que uma dessas mesmas pessoas que precisaram de auxílio durante seu curso de graduação não vá precisar do mesmo apoio numa pós? Sim, numa pós-graduação. A entrevista da bolsa no mestrado ignora totalmente o aspecto social e a condição de vida do concorrente. É o dane-se institucionalizado e gabaritado pelos altos escalões da pesquisa científica. Ser pobre não é vergonha nenhuma. Ter uma vida difícil é muito comum num país tão cheio de desigualdades como o Brasil. Fazer parte de uma pequena parcela da população que chega a universidade é um privilégio. Mas não se pode ignorar determinados fatos e acontecimentos num falho processo de seleção. Não se deve ter piedade de ninguém. Por nenhum motivo. Por nada. O portão se abriu e vi minha mãe teimando em acreditar numa possível alegria mesmo sabendo encontrar em mim somente decepção e descaminho. Hoje comprei meia dúzia de caquis para ela. Talvez a fruta que ela mais goste. Talvez uma forma de alimentar a paz que há nesse inferno que são os outros. Talvez. No fim desse mês completo meus vinte e cinco anos. Tinha alguns planos particulares e muito próprios de quem só quer um pouco de tranqüilidade para essa data. Nada dissimulado. Nada incondicionalmente ligado ao dinheiro ou mesmo a valores materiais. Eram planos que talvez só existissem nesse inferno outro que me vem sempre que penso na vaidade, no tendencionismo e no medo de se posicionar de alguns e alguéns. Seis caquis bem maduros. Vermelhos e com uma carne aparentemente insaciável aos olhos e gostos de vista. Horas antes da entrevista final encontro o rosto de minha avó sorrindo estática numa fotografia. Ela não sorri para mim, mas ali encontro um retalho de tudo que podia ter sido e não foi. Eu já sabia que não adiantaria de nada. Ela também. Sartre também. Cada um sabia de um jeito e eu tentava ignorar o que era claro desde o correr manco do dedo pela folha. Aliás, Os Miseráveis de Hugo é um belo romance. Aqui quem fala e escreve não é um famoso articulista nem menos um bom articulador. Trata-se de um aluno no sentido diacrônico do vocábulo, um sem luz. Alguém perdido nessa pequena e particular escuridão que é não entender as verdades da vida. Não encontro melhor forma para terminar este texto senão chamando Pedro Paixão em uma de suas respostas a uma entrevista recente: “O que eu quero é ser sério.” Ser levado a sério e só. Mais nada.

2 Comments:

  • At 8:04 PM, Anonymous Isabella said…

    Nossa, Rio de Janeiro - Bahia: quilômetros de distância e um mesmo problema. A seca. Achei que isso só acontecesse no Nordeste...
    Mas eu já estou acostumada, nunca ganho nada mesmo... Nunca é fácil mesmo... Nunca é justo mesmo...
    Aliás, que pretensão achar que justiça era eu ganhar uma bolsa. Tb foda-se, comprei uma mochila na C&A, muito melhor do que uma bolsa...
    Amigo, não fique assim não, vc ainda tem o doutorado pela frente, quem sabe vc não consiga? E eu tb? Seria legal, né?

     
  • At 1:30 PM, Anonymous Ivan Ciclobásico said…

    Imundo, meu amigo, de repente o texto não tinha saída, não dava mais pra rir das ironias, das supressões, das odes que o Brownie já dedicou a esta seqüência absurda de contradições que cercam os processos seletivos. Mas comprar caquis ainda vale a pena, e todas essas coisas que não dependem do que imaginamos ser merecimento ou justiça, estas palavras tão caducas. No mais, se o futuro vier:

    "Nunca deixará de ser espantoso como uma coisa tão leve, a que se chama esperança, pode encher uma alma"
    Pedro Paixão, Tâmujunto!

     

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