Umas, novas, Idéias

Saturday, March 03, 2007

"Teus joelhos e tuas costas nuas"


Quando você me diz essas coisas, pense antes. Acredito demais. Espero demais. Tenha cuidado. Não faça de suas palavras cordas que se enrolam em minha cintura, prontas para me salvar desse penhasco de ilusões que eu mesmo criei. Quando você vier – se é que realmente vem como disse ao telefone – venha com calma. Soletre as batidas da porta e conte até muitas dezenas antes de repousar as vistas sobre meu corpo. Espalhei bilhetes por toda a casa para que possa entender o fato: não te espero desde ontem, espero faz tempo. Essa noite será outra como as outras que foram seguindo ao longo dos anos. Nunca te disse diretamente o que queria, mas sempre soube de suas respostas. Você recupera as vogais da fala alheia e as transforma em silêncio. Eu quero teu silêncio como abrigo, deserto argumento.
Todas as coisas do quarto parecem rolar pelas paredes e portas. A janela range uma dor ausente e sentida, enquanto me enrolo no tapete como se pudesse me esconder por muito tempo. Você chega. Como prometera ao telefone traz suas malas, uma caixa de bombons e a boca levemente desfeita de batom. Olha pra mim como se interrogasse meu medo. Põe as malas no chão, junto da cômoda, senta-se no braço da poltrona muito de leve, como se flutuasse e pergunta se tinha feito o café que lhe prometera. Aos risos me conta coisas de sua vida. Entre uma caneca e outra fala dos lugares em que esteve, as pessoas que conheceu e as que não quer ver nunca mais. Vou deixando de lado a idéia de abandono que me perseguiu por todos esses anos. Sua voz torna o ambiente mais claro, devassa as cortinas. Enquanto levamos suas malas para o quarto me diz o quanto será bom ficar por aqui. Deixo-a arrumando suas coisas, invento uma desculpa qualquer e vou até a cozinha. Ponho água para ferver e passar outro café. Da janela vejo o dia adeusando. Você fica. Pelo menos por hoje.

4 Comments:

  • At 9:58 PM, Anonymous Ivancb said…

    legalzinho...
    mas adeusando é inadmissível.

     
  • At 2:52 PM, Anonymous Navegante said…

    Assim caminham os homens...sempre desejando o que outrora nunca fora desejado,mal o desejo anuncia –se ,na mínina possibilidade de tornar-se carne,sua substância se esvai ,tornando-se nebulosa no espaço .Basta o desejo vir a ser ameaçado com a concretude das coisas transfigura-se noutra palavra para não perder-se em si .Assim,também sempre haverá uma "outra" para além daquela que um dia fora uma "outra".E com o coração aberto, crendo nas promessas de um além-mar de palavras promissoras,de “saudades etéreas”,de um possível” ter de acostumar-se com o outro,nas suas brincadeiras” ,após o banho de gotas saltitantes,que faziam cócegas unindo os fragmentos que perdendo seu rumo, não mais encontrarão seus pares na escuridão das palavras mudas..., bolhas de sabão já flutuantes e fugidias anunciavam o que viria...só restaria enfim ater-se aos labirintos que a levariam ao fundo do próprio coração,pois como é tola a alma feminina!Compreender o incompreensível ...calcular o incalculável...incompreensivelmente incompreendida.E quando o desordenado relógio endoidece de tanto tocarem em tão frágeis peças que o compõem,ainda o jogam fora,pois ele não serve mais.Então ele se despedaça ,até que uma alma doce e corajosa o pegue do lixo e o reconstrua,pois amando o que aos olhos apressados do mundo não serve mais,enxerga que dentro dele há um valor incomensurável que nenhum outro relógio terá,pois ainda que fragmentado conserva sua integridade de simplesmente ser único,então torna-se o relógio o de um tempo infinito,e lá se conjungam,a alma e o relógio,apesar da incompletude do mundo.Este novo mundo formado não tem a pretensão de escolher o claro em detrimento do escuro,o perfeito em detrimento do imperfeito,mas faz dessas instâncias um aprofundamento do viver.Mesmo ferido,o relógio não se arrepende do instante que mal pôde ser instante ,pois ainda assim vale mais o tempo dos sonhos que o da desilusão,e haverá sempre uma alma perdida lá longe com os olhos além da existência imediata das coisas para tornar os objetos fragmentados num infindável rio em que possa navegar,e assim quem sabe transformar rios de lágrimas em rios de sonhos.E lá se vai finalmente cantando ,em direção ao habitante coração de suas próprias florestas...FIM
    De: alguém que vai e se esvai finalmente em paz com as palavras.

     
  • At 3:27 PM, Anonymous Navegante said…

    Sei que nem saberá quem é essa navegante qe escreveu o texto anterior a esse...
    Mas digo que os que mais te fazem mal são os que mais te fazem ver em profundidade e a conhecer as polaridades de dentro dos homens: o obscuro e o que se esconde por detrás do aparente ser das máscaras sociais também.Valeu!Enfim,ADIEU.

     
  • At 3:37 PM, Anonymous Navegante said…

    Bem,para aquelas que vestem as máscaras sociais,obviamente!

     

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